O universo digital de Roblox, uma das maiores plataformas de jogos do mundo, transformou-se em palco para uma onda de protestos virtuais organizados por crianças e adolescentes brasileiros. A mobilização em massa ocorre após a implementação de novas diretrizes globais que restringem o uso do chat de voz e texto para usuários menores de nove anos, além de exigir verificação de idade e aprovação parental para outras faixas etárias.
Desde 7 de janeiro de 2026, as novas regras do Roblox passaram a bloquear automaticamente o chat para usuários com menos de nove anos. Para crianças brasileiras com menos de 13 anos, a plataforma agora impõe a obrigatoriedade de aprovação dos pais para completar a verificação de idade, que utiliza tecnologia de reconhecimento facial. A medida visa segregar as conversas por idade, impedindo que crianças interajam livremente com adultos ou adolescentes de outros grupos, e evitar que menores de 16 anos se comuniquem com adultos.
A insatisfação dos jogadores é palpável e se manifesta de forma criativa. Utilizando seus avatares, crianças têm simulado manifestações de rua em ambientes virtuais, como o popular Brookhaven. Eles carregam "cartazes" digitais com mensagens como "Devolve o chat" e "Queremos injustiça". Em alguns casos, a criatividade foi além, com referências históricas como Maria Antonieta e trechos da música "Cálice", de Chico Buarque, além de simulações de barricadas e veículos incendiados. Os protestos rapidamente transbordaram para as redes sociais, onde memes e vídeos do movimento viralizaram.
A plataforma justifica as severas mudanças como parte de um esforço maior para aumentar a segurança e proteger seu público majoritariamente infantil. O Roblox tem enfrentado pressão internacional e processos nos Estados Unidos – como o de agosto de 2025, no estado da Louisiana – sob acusações de falhas na prevenção de crimes sexuais e de ser um "ambiente propício para predadores". As medidas buscam mitigar riscos de assédio e aliciamento, integrando filtros automáticos, moderação mais rígida e monitoramento contínuo.
Curiosamente, o influenciador Felipe Bressanim, mais conhecido como Felca, tornou-se um dos principais alvos desses protestos. Ele ganhou notoriedade em agosto de 2025 ao denunciar a "adultização infantil" na internet, o que culminou na aprovação da Lei nº 15.211, apelidada de "Lei Felca". Esta lei delega às empresas de tecnologia a responsabilidade por implementar medidas de segurança contra exploração e abuso sexual de conteúdo infantil. Embora Felca não tenha relação direta com as decisões do Roblox, parte da comunidade de jogadores associa as novas restrições ao seu discurso. Como resultado, o influenciador relatou estar sofrendo ataques diretos, incluindo ameaças de morte em mensagens privadas no Instagram, vindas de perfis que se identificam como crianças revoltadas.
Essa não é a primeira vez que o Roblox serve como palco para manifestações. Em junho de 2025, servidores de roleplay nos Estados Unidos foram usados para protestos contra a atuação do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE). O desafio agora para o Roblox é manter o engajamento de seu público jovem enquanto implementa barreiras de segurança que, embora necessárias, tornam o acesso às funções sociais mais burocrático.